A greve interminável e excludente

É muito cômoda a situação do metrô. Circula em operação-padrão, de 6h às 9h e de 17h às 20h30. Com essa maquiagem no horário, satisfaz – mesmo que porcamente – algo em torno de 80% ou mais de quem dele depende. Na faixa matinal a maioria das pessoas está saindo de casa e na abertura entre fim da tarde e começo da noite está voltando.

Acontece que esse funcionamento é completamente excludente. Que operasse com capacidade reduzida de trens e servidores, mas em horário cheio. O truque foi tão magistral que a (grande) maioria da população não reclama, pois tem sua necessidade

metro-carlos moura-cbdapress

Funcionamento parcial maquia greve | Foto: Carlos Moura – CB/DA Press |

satisfeita, e assim o movimento grevista ganha um fôlego de nadador olímpico para se estender pelo período que quiser.

Sim, para o período que quiser! Ou seria mera coincidência ser esta a mais longeva greve da história dos trens no Distrito Federal? Infelizmente, o recorde negativo parece passar incólume aos olhos de autoridades do Ministério Público do DF, que literalmente tem dado de ombros para o cidadão e seu direito de ir e vir ceifado.

Águas Claras

Todas as regiões administrativas do DF que têm estações do metrô sofrem, mas uma agoniza com mais sofrimento: Águas Claras. A cidade foi arquitetada para se desenvolver às margens dos trilhos. Até aí tudo bem, a iniciativa foi louvável, a cidade é moderna e realmente um percentual gigantesco de seus habitantes usa o metrô.

Entretanto, esse fato positivo acaba por expor uma mazela mortal de planejamento: a cidade não tem ônibus. Sem eufemismo, sem exagero. E não estou aqui a tratar de linhas alternativas ou para todo destino, mas falando do centro de Brasília, Plano Ploto, Rodoviária, L2, Eixos. Se tem qualquer dúvida, aguarde em qualquer parada da Av. Araucárias ou da Castanheiras. Só não tenha compromisso nas próximas duas horas, porque aí não vale.

Aliás, eu lanço o desafio. Entre no site do DFTrans – que é até organizado e bem interativo – e busque rotas que passem pelas duas principais avenidas de Águas Claras, as que acabei de citar. Novidade, no caso, só se encontrar.

 

Greve do metrô: direito ao uso não pode justificar o abuso

Lá se vão 29 dias desde que os metroviários do Distrito Federal resolveram cruzar os braços. Funcionamento somente em horários de pico e com frota reduzida, fatos que, pelo menos, diminuem o impacto sobre a população. Entretanto, tais medidas paliativas já estão quase fechando o primeiro mês, e o cidadão é o lado prejudicado nessa história.

O direito à greve é constitucional, embora seja utilizado em demasia no Brasil, especialmente por servidores deste órgão. O Tribunal Regional do Trabalho já deu razão jurídica à classe dos metroviários em desfavor do Poder Público, o que legitima ainda mais a paralisação, mas aí entra-se em outra discussão [a de que a justiça trabalhista é pró-empregado até demais].

É sabido que o poder não pode tudo. A Constituição Federal de 1988 roga que a greve é um direito, mas como todos os direitos, deve ser usado com razoabilidade, coerência, parcimônia, baseados no interesse público. E não na linha do pensamento sindicalista de cruzar os braços para doer no bolso do patrão. Até porque, no caso, o patrão é o contribuinte, o cidadão.

É preocupante ver e sentir a mais longeva greve do Metrô no DF. Cidades como Guará e Águas Claras – esta última arquitetada em função dos trens – estão sofrendo com a falta desta importante opção de transporte coletivo.

Aguardemos. Mas que não seja muito.

Sobre ariranhas, propina e salvação  

Era 1977 e o sargento Sílvio Hollenbach passeava com a família no zoológico da [ainda muito jovem] Brasília. Ao passar próximo ao fosso das ariranhas, seu instinto militar lhe manteve alerta para que percebesse que Adilson Florêncio da Costa, de 13 anos de idade, caíra na jaula dos animais. Instinto que gritou mais ainda quando, sem titubear, pulou a cerca e mergulhou na água para tentar salvar o menino.

holenbach3

Zoo do DF homenageia sargento

O objetivo foi concluído e ele salvou o garoto. O zoológico de Brasília carrega o nome de Sílvio Delmar Hollenbach. Mas, por ordem do destino, o militar acabou morrendo dias depois, em virtude de uma infecção generalizada causada pelas muitas e muitas mordidas das ariranhas. Mas como quem serve à nação, salvou Adilson.

Os anos passam. É 2016 – quase 40 anos depois – e a capital federal ferve por conta de outras ariranhas: as que, como lontras gordas e que vivem a vida a se arrastar, assaltam os parcos recursos que o povo consegue ganhar.

Adilson, já na tenra idade e ocupando o posto de diretor do Postalis (o fundo de pensão dos funcionários dos Correios) é preso temporariamente em Brasília por suspeita de envolvimento em um esquema que desviou R$ 90 milhões do benefício.

Por onde quer que esteja, Hollenbach não está nem um pouco feliz com as peripécias do pupilo. Certamente não se arrepende de seu feito, afinal, tratava-se de uma vida. Humana. Talvez nem tanto racional.

Como o sargento, estamos fugindo das ariranhas sedentas por morder, abocanhar, encher o bucho. Ele não escapou. E para nós, há salvação?

Jéssica Leite, vítima da ineficiência

O poder público é ineficiente. É burocrático, é vagaroso, mas acima de tudo é ineficiente. Há exatamente uma semana, no dia 14 de junho, a estudante Jéssica Leite (20) foi assassinada em Taguatinga. De lá para cá, o que chama a atenção é a postura de um Estado que não se encontra nas próprias declarações que presta. O desenrolar do caso tem sido um show de horrores.

Três dias depois do crime, uma revelação inusitada: na bolsa da garota, a polícia encontrou maconha, LSD e uma balança de precisão. Este último item [sem juízo de valor] insere a vítima não somente na seara de usuária de entorpecentes, mas de traficante.

Todavia, portais têm anunciado na linha de que “não se sabe se o material apreendido era da estudante ou foram plantados pelo assassino”. Por outro lado, o delegado responsável pelo caso, Flávio Messina, de Taguatinga Norte, afirma veementemente que a bolsa sempre esteve em posse da polícia, desde o registro da ocorrência: “Eu mesmo peguei a bolsa na hora do resgate e trouxe para a delegacia”, disse ao Jornal de Brasília.

O delegado acusa a família de “estar vendo coisa onde não tem”. Prega, nas entrelinhas, que drogas e balança eram de Jéssica. Mas não tem provas, mesmo tendo realizado uma busca na casa da vítima sem ter encontrado nada. Além disso, avalia-se que esteja falando demais à imprensa e dando atenção secundária às investigações. Não apresenta resultados, sequer tranquiliza a sociedade. Ora diz que a garota pode ter sido morta por um conhecido, na entrevista subsequente diz que não há linha de investigação pré-determinada.

A impressão que fica para a população é que, pelo fato de não terem roubado nada, a polícia está literalmente sem saber como agir. Primeiro, afirmou que era latrocínio. Demorou para mudar a tipificação para homicídio. Ora, se estavam com a bolsa desde o momento do registro, tal como afirmam, qual a explicação para sequer saber o crime cometido?

Independentemente de Jéssica ser ou não usuária de drogas, ou estudante exemplar, ou jovem curiosa, ou santa, ou pervertida, ou o que quer que seja, quem a matou foi um Estado devagar, quase parando; um poder público completamente ineficiente.

Uma nação que agoniza

Avalio que nossas instituições são sólidas, sem dúvidas. Entretanto, a começar dos dirigentes dos três poderes republicanos, não temos solidez. Não temos seriedade. Me arrisco, sim, a dizer que sequer temos moral. É, sem quaisquer dúvidas, a maior crise política da história brasileira (maior inclusive do que o pré-impeachment de Fernando Collor, em 1992). Aqui me refiro à política enquanto gênero, do qual são espécies economia, articulação, representatividade.

Temos, na chefia do Executivo da nação, uma presidente que, dançando a música tocada pelo PT, busca tirar sua popularidade e credibilidade do atoleiro que se encontra ao atrelar ainda mais sua imagem à do ex-presidente Lula. Este, até meses atrás, era historicamente tido inclusive por adversários políticos como a carta na manga do partido e do governo para tudo; entretanto, agora vê sua imagem ser arranhada como nunca antes na história deste país, a poucos metros de virar réu. Escândalos à parte, se Luis Inácio Lula da Silva aceitar a assunção de qualquer ministério, assina seu atestado de culpa. Vocês verão o porquê.

rasgada-lula-marques

Foto: Lula Marques

No Legislativo, temos cangaceiros no comando das duas casas. Eduardo Cunha, alvo de processo ético na Câmara dos Deputados, preside a Casa com o rabo entre as pernas – que ele, magistralmente, não deixa transparecer. É de uma frieza apavorante. Não viu, não sabe, não teme. Garante que contas na Suíça para lavagem de dinheiro nunca existiram. E é tão político, tão assertivo em sua mentira que persuade os desavisados. No Senado, Renan Calheiros é dono de um tato impressionante com aliados e adversários, mas que tem no currículo, entre outros feitos, uma pistolagem institucional no governo do conterrâneo Collor.

As luzes dos holofotes também vão mirando o Judiciário. Com a possibilidade iminente de Lula assumir um ministério e, assim, escapar das garras do juiz Sérgio Moro e ter seu julgamento no foro privilegiado do Supremo Tribunal Federal (STF), recai sobre a mais alta corte brasileira a pecha de um tribunal petista, sob desconfiança popular de aliviar a mão com o ex-presidente. Por isso, obviamente, estaria Lula disposto a aceitar um ministério.

Não há um só poder que escape. E o exposto acima serve só pra ficar nos líderes de cada um dos três poderes, com uma exceção para Eduardo Cunha, que é sui generis. Imaginem o odor que vai exalar quando a investigação bater nos reles. A coisa está feia, e vai ficar ainda mais.

Brasília capital do rock? Não mais

size_810_16_9_brasilia

Não é mais o rock’n’roll que manda por aqui

Por muitos anos, Brasília sustentou o título de capital brasileira do rock. A alcunha não era sem motivo, haja visto que aqui é o berço de Raimundos, Cássia Eller, Capital Inicial, Plebe Rude, Móveis Coloniais de Acaju, Sapatos Bicolores e várias outras, sem falar da notoriedade internacional da Legião Urbana – que mais de um filme já inspirou.

Entretanto, a cultura mudou. Mesmo com novas bandas surgindo, embaixo dos blocos do Plano Piloto já não predomina mais o som da base formada por guitarra, baixo e bateria. As festas do rock’n’roll têm seu público cativo, mas não mais arrastam multidões como antigamente. A própria agenda dos grandes eventos do gênero mostra isso, com muito – mas muito! – mais festas de ritmos como sertanejo, pagode, samba, forró e axé music no decorrer do ano.

A situação não é de agora: lá pela segunda metade dos anos 90 já se delimitava que as festas mais populares seriam predominantes no Distrito Federal. O povão agradece, os roqueiros reclamam. Mas o mercado é formado pela vontade da população, felizmente para uns, infelizmente para outros.

A verdade é que Brasília é um micro país. Aqui se encontram todas as culturas, todos os credos, raças, ritmos, danças, misturas, ideologias e idiomas. A capital pode não ser exatamente do povo, graças à política; mas do rock ela já não é há muito tempo.

Por Daniel Guerra 

Queijo suíço

Por Ary Filgueira, do Metrópoles

Os temporais não são os únicos problemas para os motoristas brasilienses nesta época do ano. Não bastasse ter de ficar atento ao trânsito, é preciso ficar de olho no asfalto para enxergar e desviar dos buracos que, cheios de água, se transformam em verdadeiras armadilhas. Na chuva desta quinta-feira (21/1), pelo menos 14 motoristas foram vítimas de um buraco na pista entre o Sudoeste e o Parque da Cidade, na Estrada Parque Indústrias Gráficas (Epig).

Além do susto e do prejuízo, o resultado foi uma fila enorme de veículos danificados e muita reclamação em meio a um trânsito engarrafado no sentido a Taguatinga. Moradora de Vicente Pires, Carine Mariani, 28 anos, não acreditou que pudesse haver um buraco ali. “É um descaso com a gente”, desabafou.

A roda da frente do carro dela precisou ser trocada para que pudesse completar o trajeto até em casa. Mesmo assim, acredita que teve sorte. “No meu, foi somente uma roda. Tiveram outros carros que danificaram as duas da frente”, contou.

Ela chamou o irmão, que saiu de Taguatinga para socorrê-la. Segundo uma outra motorista, que também caiu na “armadilha”, em duas horas, 14 carros passaram no buraco e acabaram ficando no meio da estrada.

E os transtornos não se concentraram somente naquele ponto. Um motorista que também passava pela pista disse que contou nove carros com pneus estragados no trecho entre o Sudoeste e o início do Setor Policial Sul. Segundo ele, por causa dos buracos.

Veja abaixo galeria de imagens bem-humoradas sobre o problema:

Este slideshow necessita de JavaScript.

Operação tapa buraco

A Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) informou que a recuperação de vias é constante durante todo o ano, e que o custo mensal da Operação Tapa Buraco é de R$ 6 milhões. O órgão ressaltou, no entanto, que a demanda aumenta em épocas de chuva por conta da facilidade com que os buracos apareceram nas pistas.

Segundo a companhia, há ainda uma licitação em curso para a contratação de empresa que preste do serviços de recapeamento — no entanto, o certame se encontra momentaneamente suspenso, a pedido do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF).